Saúde

Estudo desafia dogma da imunologia e pode redefinir desenho de vacinas
Os pesquisadores utilizaram como modelo a região 'stem' da hemaglutinina (HA) do vírus influenza — uma porção considerada promissora para vacinas universais contra a gripe por ser mais conservada entre variantes virais.
Por Laercio Damasceno - 28/02/2026




Um novo estudo publicado nesta quinta-feira (26), na revista eBioMedicine, do grupo The Lancet, lança dúvidas sobre um dos princípios mais aceitos no desenvolvimento de vacinas: a ideia de que os epítopos mais “imunodominantes” — aqueles que despertam respostas mais fortes de células T — são necessariamente os mais eficazes para sustentar uma resposta robusta de anticorpos.

A pesquisa, conduzida por cientistas da University of Melbourne no Peter Doherty Institute for Infection and Immunity, conclui que a imunodominância é um preditor pobre da qualidade da ajuda fornecida por células T foliculares auxiliares (TFH) às células B — etapa crucial para a formação de centros germinativos e produção de anticorpos de alta afinidade.

“O que mostramos é que a força numérica da resposta de células T não significa, necessariamente, que essas células estejam oferecendo a ajuda correta às células B”, afirma a imunologista Jennifer A. Juno, uma das autoras seniores do estudo. “Qualidade importa mais do que quantidade.”

O enigma do “silêncio imunológico”

Os pesquisadores utilizaram como modelo a região “stem” da hemaglutinina (HA) do vírus influenza — uma porção considerada promissora para vacinas universais contra a gripe por ser mais conservada entre variantes virais. No entanto, quando administrada isoladamente em camundongos C57BL/6, essa proteína falha em induzir anticorpos detectáveis.

Segundo o estudo, isso ocorre porque o antígeno carece de epítopos eficazes de células T CD4+, essenciais para a geração de células TFH e para a ativação sustentada de células B nos centros germinativos.

Ao anexar diferentes epítopos de células T à proteína “stem”, os cientistas observaram resultados surpreendentes. Um dos epítopos mais imunodominantes — identificado como HA91 — foi incapaz de restaurar a resposta de anticorpos. Já outro epítopo, menos dominante, derivado da glicoproteína do vírus da coriomeningite linfocítica (GP61), promoveu uma resposta robusta, com formação intensa de centros germinativos e títulos elevados de IgG.

Figura. A apresentação de nanopartículas aumenta a imunogenicidade das células-tronco na ausência de auxílio proeminente de células T CD4 + . Camundongos foram vacinados com 5 mg de proteína HA de comprimento total (HA-FL), proteína HA-tronco ou nanopartículas de ferritina-tronco (Stem-Fe) coformuladas 1:1 com o adjuvante Addavax. O soro e os linfonodos de drenagem foram coletados no 14º dia pós-vacinação. (A) Títulos séricos de IgG específica para células-tronco (N = 10/grupo). (B) Frequência de células B do centro germinativo

“O epítopo HA91 gerava muitas células T específicas, mas elas não se estabeleciam adequadamente dentro do centro germinativo”, explica Adam K. Wheatley, coautor do trabalho. “Sem essa localização correta, a ajuda às células B simplesmente não acontece de forma eficaz.”

Nanopartículas desbloqueiam ajuda subdominante

Outra descoberta relevante envolveu a apresentação do antígeno em nanopartículas de ferritina. Quando a proteína “stem” foi exibida de forma multimerizada nessas estruturas, respostas de células T antes quase indetectáveis tornaram-se suficientes para sustentar a produção de anticorpos.

Isso sugere que a organização estrutural do antígeno pode compensar a escassez de epítopos dominantes, amplificando sinais de ativação das células B e reduzindo a quantidade de ajuda necessária das células T.

“O arranjo em nanopartículas parece baixar o limiar de ajuda exigido”, afirma Juno. “Mesmo respostas subdominantes conseguem sustentar uma reação eficiente.”

Implicações para vacinas contra influenza, HIV e coronavírus

O estudo tem implicações diretas para o desenho racional de vacinas contra patógenos complexos como influenza, HIV, malária e coronavírus. Estratégias modernas frequentemente buscam concentrar a resposta imune em regiões altamente conservadas das proteínas virais, reduzindo o tamanho do imunógeno. Mas essa redução pode eliminar epítopos críticos de células T.

Os dados indicam que simplesmente preservar os epítopos mais dominantes pode não ser suficiente. Será necessário validar experimentalmente quais epítopos realmente geram células TFH capazes de residir no centro germinativo e sustentar respostas duráveis.

“Não podemos assumir que o epítopo mais visível para o sistema imune é o mais útil”, diz Wheatley. “O desenho de vacinas precisará considerar a qualidade funcional da ajuda de células T, não apenas sua frequência.”


Financiado pelo National Health and Medical Research Council (NHMRC) da Austrália, o estudo reforça uma mudança de paradigma: na arquitetura imunológica das vacinas, nem sempre o mais forte é o mais eficaz.


Referência
A imunodominância é um mau preditor da qualidade das células T auxiliares foliculares induzidas pela vacina. eBioMedicinaVol. 125 106185 Publicado: 26 de fevereiro de 2026. Ming ZM Zheng, Hyon-Xhi Tan, Kathleen M. Wragg, Lydia Murdiyarso, Devaki Pilapitiya, André Kellye outros. DOI: 10.1016/j.ebiom.2026.106190

 

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